Pular para o conteúdo principal

A sacola de peixe

Naquele dia a sala de aula estava cheia. Algo difícil de se ver em turmas de alfabetização de jovens e adultos.
O professor radiante, seguia seu trabalho, explicando, as vezes brincando, até que ele chegou.
Todo mundo parou para ver. Era o marido de uma aluna. Vinha do rio com uma sacola na mão e pelo jeito, havia tomado umas e outras por lá. Com cara de poucos amigos, ordenou à sua mulher:
- Vamos embora! Precisa limpar este peixes que estou com fome!
Sem parar de escrever, e numa calma estranha, respondeu:
- Não vou. Vou quando acabar a aula!
Dava para sentir o nervosismo do professor com aquela situação. O que poderia fazer? A apreensão tomou conta de toda a sala. Todos esperavam para ver qual seria o desfecho daquela história. Será que ele teria coragem de bater nela ali?
- Vamos embora Lúcia! Disse ele asperamente, quase gritando, com uma voz um pouco embaçada.
Ela sequer levantou o rosto. Continuava fazendo sua atividade.
- Vamos embora... como se a advertisse. Mas nada. Ela não se movia.
Na porta, a cara carrancuda, uma expressão estranha. Ninguém falava nada, nem mesmo o professor.
Em um rompante, o homem invadiu a sala. Alguns alunos se levantam prontos para derrubá-lo caso ele fosse agredi-la.
Para a surpresa de todos, ele jogou com força a sacola de peixes em cima da mesa que Lúcia compartilhava com outras alunas. A sacola fina, rasgou-se e peixes pularam para todos os lados como se ganhassem vida, sujando as alunas que estavam mais próximas e se espalharam pelo chão. Lúcia não se movera. Estranhamente, continuava escrevendo, cabeça baixa.
Apenas depois de muito as colegas insistirem que ela o acompanhasse com medo do que ele poderia fazer, enfim levantou-se.
Apanhou os peixes espalhados e se foi.
Agora, o professor tentava com esforço retomar sua aula.
Lúcia nunca mais voltou.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Existe maus tratos a animais nos rodeios. O que você acha disso?

A algumas semanas, o Domingo Espetacular da Rede Record exibiu uma reportagem bastante interessante sobre a polêmica envovendo maus tratos a animais em rodeios no Brasil e no mundo. Digo polêmica porque não é de hoje que pessoas e entidadades questionam o uso de animais nesses (e outros) esportes. Por mais que alguns muitos queiram, não há como negar que os animais usados nas provas sofrem sim, tanto que como apresentado na reportagem (e em casos que aconteceram em uma cidade que morei) muitos morrem ou precisam ser sacrificados. As interrogações que ficam são: Será que é justificável lançar mão da vida de outros seres vivos em prol de um lazer? De um espetáculo? O que teria os rodeios de diferente entre os espetáculos de circo usando animais e rinhas de galo? Provavelmente existam muitas respostas para estes questionamentos, mas uma das mais óbvias está diretamente relacionada ao volume de dinheiro que estes eventos movimentam. E este com certeza é um dos maiores obstáculos de qua...

Polêmicas nossas de cada dia - 1ª parte: Atraso Cultural

Olá caros leitores, esse é o primeiro de 10 textos da série "Polêmicas nossas de cada dia". Não deixem de acompanhar! Júlia chegou radiante no trabalho. Sorriso de canto a canto da orelha. Estava radiante entregando os convites de seu casamento. Tudo isso porque depois de mais de um ano de planejamento, enfim estava chegando o dia. - Colega, me conte... ouvi dizer que seu casamento vai ser coisa de primeiro mundo! – Que nada menina... vai ser simples, mas com muito bom gosto! - E a ansiedade? Muito ansiosa? Claro que estou! Não vejo a hora de entrar naquela igreja com aquele vestido lindo! Nem pensem em não ir viu! No convite a hora do casamento era às 19:30. Solange já estava desesperada, afinal ainda tinha que pegar um ônibus para chegar à igreja e já eram 19:00 horas! - Meu Deus! Acho que vou perder a entrada da noiva! Falou Solange para o motorista. Até que Solange estava com sorte. O transito estava bom e 19:35 ela chegou à igreja. Mal desceu do ônibus e tomou um sust...

Declarar a cor da pele ainda é um grande tabu!

Apesar de parecer natural responder qual a sua cor, (e deveria ser) geralmente não é assim que acontece. Essa questão está longe se ser encarada como algo necessário e "tranquilo". Trabalho em uma escola pública e ao fazer a matrícula dos alunos, é necessário perguntar qual a cor dos mesmos, e a resposta na maioria das vezes a resposta é: morena. Insisto que não há essa opção, apenas branco, preto, pardo, amarelo e indígena. Apartir desse momento já me sinto constrangido, principalmente pelo fato de os pais pedirem para que eu determine a cor da criança. Afirmo que não posso, preciso que eles mesmo declarem. Percebo que em muitos casos, os pais tentam dizer implicitamente que a cor da criança é branca, mas por pensar que podem ser tidas como preconceituosas ou que talvez esteja negando suas origens, não afirmam e acabam por optar por parda ou acabam nem declarando. Há também os que acreditam ser negros mas não assumem, talvez acreditando ser uma cor "inferior" que a...